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Mitologia e crenças nórdicas

As fadas no mundo nórdico da época viking

1. Um esclarecimento inicial

Nas fontes nórdicas medievais não aparece uma categoria simplesmente equivalente às «fadas» dos contos modernos: seres pequenos, alados e de aspeto uniforme. A palavra que costuma aproximar-se mais é álfr (plural álfar), habitualmente traduzida como «elfo». Mas essa tradução pode induzir em erro: as fontes não oferecem uma descrição única dos álfar, e as suas características mudam conforme o texto e a época.

Por isso, quando se fala de «fadas vikings», convém entendê-lo como uma comparação moderna. As fontes mostram um mundo povoado por diferentes classes de seres sobrenaturais — álfar, espíritos da paisagem, figuras femininas chamadas dísir, entre outros — cujas fronteiras nem sempre coincidem com as nossas categorias atuais. Também não devemos tomar tudo o que as sagas contam como uma fotografia direta da época viking: muitas foram escritas na Islândia séculos depois dos acontecimentos que narram.University of Iceland

2. Quem eram os álfar?

Álfr é o termo nórdico antigo que costuma ser traduzido como «elfo»; álfar é o plural. Na poesia édica aparecem associados aos deuses, por vezes na fórmula «Æsir e álfar», como se fossem grupos distintos dentro do mundo sobrenatural. No entanto, os poemas não explicam com precisão quem eram nem descrevem uma sociedade completa de elfos. Um estudo recente sobre as referências édicas propõe que algumas dessas ideias possam estar relacionadas com a morte e a fertilidade, e com uma ligação ao mundo subterrâneo. É uma interpretação académica útil, mas não uma definição fechada aceite por todas as fontes.Religionsvidenskabeligt Tidsskrift

A imagem mais conhecida provém da Edda em prosa de Snorri Sturluson, redigida no século XIII. Nela fala-se dos ljósálfar, «elfos luminosos», que habitam Álfheimr e são «mais belos do que o sol», e dos dökkálfar, «elfos escuros», que vivem debaixo da terra e têm um aspeto muito diferente. A passagem apresenta uma oposição marcada entre os dois grupos, mas aparece numa obra cristã escrita vários séculos depois da época viking. Não é prudente projetar automaticamente esse esquema sobre toda a religião nórdica pré-cristã; os especialistas assinalaram que a divisão poderá ter sido influenciada pelas ideias e pela estrutura literária do próprio Snorri.northerntales.se

Consequentemente, o «elfo luminoso» e o «elfo escuro» são categorias documentadas em Snorri, não necessariamente uma classificação universal partilhada por todos os Escandinavos da era viking.

3. Os álfar e os mortos

Algumas fontes relacionam os álfar com túmulos ou com seres subterrâneos. Existe também o título Óláfr Geirstaðaálfr, aproximadamente «Óláfr, o álfr de Geirstaðir», associado nas tradições medievais a um rei morto e sepultado num túmulo. Este material sugere que, pelo menos em certos relatos, a palavra podia estar ligada aos defuntos, a figuras poderosas depois da morte ou ao culto de um antepassado.

Mas é necessário considerá-lo com cautela. A obra medieval Ynglinga saga conta que o rei Óláfr foi sepultado sob um túmulo em Geirstaðir, enquanto o relato mais explícito sobre o nome e o culto de Óláfr Geirstaðaálfr provém de uma tradição literária posterior. Não é uma prova direta de que os Vikings imaginassem todos os elfos como mortos, nem de que esse culto fosse uniforme.researchgate.net

A investigação moderna encontra, de facto, várias representações possíveis: os álfar podem aparecer como seres sobrenaturais de prestígio, como habitantes ligados ao subsolo ou como figuras mais ameaçadoras em textos posteriores. O seu significado parece ter mudado ao longo do tempo.University of Iceland

4. O álfablót: oferenda aos elfos

Uma referência especialmente valiosa aparece nas Austrfararvísur, uma série de versos atribuídos ao escaldo islandês Sighvatr Þórðarson, que viajou pela Suécia no início do século XI. No relato, Sighvatr tenta entrar numa casa, mas uma mulher impede-o: ali celebrava-se um álfablót, uma cerimónia ou oferenda dedicada aos álfar, e os cristãos não eram bem-vindos.

É um testemunho importante porque conserva uma referência antiga a uma prática religiosa expressamente ligada aos elfos. Ao mesmo tempo, a informação é escassa: não descreve em detalhe o ritual, os participantes nem as crenças que o acompanhavam. A base de dados académica de poesia escáldica salienta que esta é a única referência a um álfablót na poesia nórdica conservada e que tanto a natureza da cerimónia como a dos álfar continua a ser difícil de determinar.Lingue e Letterature d'Oriente e d'Occidente

Assim, podemos dizer que as fontes mencionam uma oferenda aos álfar, mas não reconstruir com segurança um calendário, um rito comum a toda a Escandinávia ou um sistema organizado de culto.

5. Não eram o mesmo que os espíritos da paisagem

Outro grupo relevante são os landvættir, termo que costuma ser traduzido como «espíritos da terra» ou «do território». Não convém identificá-los automaticamente com os álfar: as fontes apresentam-nos como categorias distintas, embora ambas possam estar ligadas à paisagem e à religião local. Um estudo sobre a religião islandesa medieval destaca que o papel dos landvættir na religião pré-cristã não é inteiramente claro e que os textos não permitem simplesmente fundi-los com os álfar.hcmc.uvic.ca

A Landnámabók, obra islandesa sobre o povoamento da ilha, conserva uma norma atribuída à antiga lei da Islândia: os navios deviam retirar as suas figuras de proa com cabeças ameaçadoras antes de se aproximarem de terra, para não assustar os landvættir. A passagem sugere uma preocupação em manter uma relação adequada com as forças sobrenaturais associadas ao território. Como a norma nos chega através de uma compilação medieval, é necessário distinguir entre o dado transmitido e aquilo que podemos demonstrar sobre a sua aplicação histórica.hcmc.uvic.ca

As sagas contam também que os espíritos podiam proteger um território ou repelir quem dele se aproximava. Num episódio da Heimskringla, aparecem quatro guardiães da Islândia — um touro, uma águia, um dragão e um gigante — a enfrentar um explorador mágico. Este relato mostra um imaginário em que a paisagem podia ser defendida por seres poderosos, embora não lhes chame «fadas» nem os descreva como elfos.The Old Ways

6. E as figuras femininas sobrenaturais?

As fontes nórdicas mencionam também as dísir, um termo difícil de enquadrar numa única categoria. As dísir podem estar relacionadas com figuras femininas sobrenaturais, com a prosperidade e com lugares ou comunidades; na poesia, dís pode igualmente funcionar como palavra poética para diferentes figuras femininas. Um estudo especializado adverte que não devemos imaginar todas as dísir como uma espécie homogénea.Religionsvidenskabeligt Tidsskrift

As nornir (nornas) e as valkyrjur (valquírias) também são mulheres sobrenaturais, mas têm funções próprias nos relatos: as nornas estão ligadas ao destino; as valquírias, à batalha e à escolha dos caídos. Os seus limites e relações com outras figuras femininas podem variar entre textos, mas isso não as transforma automaticamente em «fadas». As categorias medievais não formam um catálogo zoológico ordenado como o de um bestiário moderno.Religionsvidenskabeligt Tidsskrift

7. Eram belos, perigosos ou benevolentes?

Não existe uma resposta única. Em Snorri, os ljósálfar são extraordinariamente belos. Outros testemunhos mostram os álfar como seres dignos de cerimónias ou relacionados com a prosperidade. Nos textos medievais posteriores, em contrapartida, podem adquirir características inquietantes ou ser associados a males e doenças. A literatura conservada, portanto, não sustenta a imagem de criaturas sempre amáveis nem a de seres necessariamente malignos.The Medieval Review

Uma forma prudente de os descrever é dizer que eram seres sobrenaturais de natureza variável, cuja relação com os humanos podia ser favorável, perigosa ou ambígua conforme o relato. As fontes não nos permitem afirmar que todos os Escandinavos partilhavam a mesma imagem deles.

8. Dos álfar ao «povo oculto»

O folclore islandês posterior fala de huldufólk, o «povo oculto», e de seres relacionados com montículos, rochas e formações da paisagem. É tentador ver neles uma sobrevivência intacta das crenças vikings, mas a continuidade direta não está demonstrada. O investigador Ármann Jakobsson sublinha que as ideias associadas aos álfar mudaram desde a Idade Média até ao presente e não devem ser tratadas como uma tradição inalterada durante séculos.University of Iceland

As crenças tardias podem conservar elementos antigos, misturá-los com tradições posteriores ou adquirir novos significados. Assim, o huldufólk islandês pode servir para estudar a história prolongada das narrativas sobre seres ocultos, mas não como descrição direta daquilo em que acreditava cada comunidade viking.

O que sabemos sobre os álfar

Nas fontes nórdicas, os álfar são os seres que mais se aproximam daquilo a que hoje chamamos fadas, embora a semelhança seja limitada. Alguns textos ligam-nos ao mundo sobrenatural, a oferendas e, em certos relatos, aos mortos ou a lugares subterrâneos. Os landvættir e as dísir também pertencem a esse universo, mas são figuras distintas.

As fontes não descrevem os álfar como criaturas pequenas e aladas. Oferecem imagens variadas e, por vezes, difíceis de conciliar, porque foram escritas em épocas distintas. Por isso, falar de «fadas vikings» pode servir como aproximação, desde que recordemos que álfar tinha um significado mais amplo e mutável.

Fontes e estudos principais

  • Simon Nygaard, “Beyond ‘ása ok álfa’: Eddic Discourses of the Álfar and their Chthonic Semantic Centre”, Religionsvidenskabeligt Tidsskrift 74 (2022).Religionsvidenskabeligt Tidsskrift
  • Ármann Jakobsson, “Beware of the Elf! A Note on the Evolving Meaning of Álfar”, Folklore 126, n.º 2 (2015).University of Iceland
  • Luke John Murphy, “Distinguishing Discourses of the Dísir”, Religionsvidenskabeligt Tidsskrift 74 (2022).Religionsvidenskabeligt Tidsskrift
  • Edda em prosa, Gylfaginning, cap. 17, passagem sobre Álfheimr e os elfos luminosos e escuros.northerntales.se
  • As Austrfararvísur de Sighvatr Þórðarson e a sua referência ao álfablót.