Glossário · Mitologia nórdica

Destino, morte e lugares sagrados

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A tradição nórdica fala de mundos habitados, salões divinos, caminhos entre diferentes âmbitos e lugares associados aos mortos. Também conserva imagens do destino e do fim do mundo. As fontes nem sempre oferecem um mapa único e completo: alguns lugares surgem em vários textos, enquanto outros são apenas mencionados brevemente.

Este glossário reúne esses nomes por temas.

01Mundos e territórios

Paisagem de montanhas, litoral e reinos nórdicos ao entardecer
Os relatos nórdicos mencionam lugares habitados por deuses, seres humanos, jötnar e outras criaturas, além de regiões primordiais associadas à origem do cosmos. Não chegou até nós um mapa único que estabeleça com precisão as fronteiras e a posição de todos eles. Alguns lugares aparecem em vários relatos; outros são conhecidos apenas por uma breve menção.
Asgard — Ásgarðr. É o reino dos Æsir, o grupo divino a que pertencem Odin e Thor. Nos relatos, encontram-se ali as moradas, os salões e os lugares de reunião dos deuses. Bifröst oferece uma passagem da terra para o céu, e Heimdall vigia esse acesso. Asgard não é, portanto, um único edifício: reúne lugares associados a diferentes figuras divinas e ao exercício do seu poder.
Os Æsir deliberam, estabelecem acordos, recebem notícias de outros reinos e preparam-se ali para ameaças que acabarão por alcançá-los. As suas defesas e sentinelas mostram que o território tem fronteiras, mas não o colocam fora de perigo. Durante o Ragnarök, as forças inimigas aproximam-se e a ordem construída pelos deuses desmorona.
No romance, Asgard também está associada à altura, à vigilância e ao poder exercido a partir de cima. É uma leitura simbólica da sua posição nos relatos, acrescentada ao papel mitológico do lugar.
Midgard — Miðgarðr. É o mundo destinado aos seres humanos. O seu nome evoca um espaço central e delimitado, em contraste com os territórios além dos seus limites. Segundo Snorri, os filhos de Borr formam o mundo a partir do corpo do gigante primordial Ymir; com as sobrancelhas de Ymir, erguem uma proteção em torno de Midgard para os humanos. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
Midgard não permanece separado dos outros reinos. Os deuses intervêm nos assuntos humanos, criaturas vindas de outros lugares ameaçam-no e a serpente Jörmungandr circunda-o a partir do mar. Nos relatos, Thor surge como um dos seus defensores. Por fazer parte de um cosmos mais vasto, as ações divinas e os perigos externos têm consequências para quem ali vive.
No romance, Midgard é o cenário mortal em que as decisões dos deuses e dos antepassados continuam a afetar os vivos.
Vanaheim — Vanaheimr. É o reino associado aos Vanir, grupo divino de que fazem parte Njörðr, Freyr e Freyja. As fontes que chegaram até nós falam das relações entre Vanir e Æsir, mas oferecem poucos pormenores sobre a paisagem, as fronteiras ou as moradas específicas de Vanaheim. Essa escassez de descrições não permite reconstruí-lo como um território plenamente conhecido.
A história de Njörðr mostra que a separação entre os dois grupos divinos não é absoluta. Segundo Snorri, ele foi criado entre os Vanir e chegou aos Æsir como parte de uma troca de reféns que ajudou a estabelecer a paz. A sua presença, bem como a dos seus filhos, entre os deuses liga Vanaheim a relatos que também decorrem no reino dos Æsir. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
No romance, Vanaheim também representa a fertilidade, a natureza, a magia antiga e os pactos com a terra viva. Estas associações desenvolvem literariamente um lugar cuja geografia é pouco descrita pelas fontes.
Jötunheim — Jötunheimr. Nome associado às terras dos jötnar. Nos relatos, estes seres surgem como adversários dos deuses, mas também como seus parentes, aliados ocasionais e detentores de conhecimentos antigos. A relação deles com os Æsir não se reduz a uma guerra permanente entre dois povos homogéneos.
Muitas das suas moradas situam-se para lá do espaço protegido dos deuses ou dos humanos. Viajar até lá pode exigir a travessia de territórios perigosos e o encontro com poderes que os Æsir não controlam. As fontes não oferecem, contudo, uma descrição geográfica única e completa de Jötunheimr: os diferentes episódios centram-se em lugares e habitantes específicos.
A sua importância também reside nesses laços familiares. A ascendência de várias figuras divinas inclui jötnar, e os encontros entre os dois grupos participam tanto na criação do mundo como nas tensões que conduzem ao Ragnarök.
Álfheimr. É um lugar associado aos elfos. Grímnismál conta que os deuses o ofereceram a Freyr em tempos antigos. Snorri, por sua vez, usa o nome ao falar do reino dos elfos luminosos. Estas referências ligam Álfheimr aos elfos e a Freyr, embora não expliquem detalhadamente como vivem os seus habitantes. *Grímnismál* (*O Canto de Grimnir*), tradução inglesa de Benjamin Thorpe
As fontes também não descrevem em pormenor as suas fronteiras, construções ou organização. O nome tem um lugar reconhecível entre os reinos nórdicos, mas a imagem habitual de um reino completamente cartografado deve-se em grande medida a reconstruções e representações posteriores.
Nidavellir — Niðavellir. Nome mencionado na Völuspá em ligação com uma morada da linhagem de Sindri. A associação aos anões e ao artesanato é comum nas explicações modernas, mas a passagem preservada é breve e não descreve Nidavellir como um reino de forjas, cidades e governantes claramente definidos. A leitura do próprio nome e a identificação do lugar a que se refere também suscitaram interpretações diferentes. *Völuspá*, *Edda Poética*, tradução inglesa de Henry Adams Bellows
É possível, portanto, falar da sua ligação a Sindri e às tradições sobre os anões sem atribuir à fonte um mapa que ela não fornece. No romance, Nidavellir ganha o caráter de uma terra de grandes ferreiros: essa representação expande os poucos dados preservados.
Svartálfaheimr. O nome pode ser entendido como «mundo dos elfos negros». Surge na tradição transmitida por Snorri e está associado a seres que as fontes descrevem de maneira desigual. Os termos svartálfar, dökkálfar e anões deram origem a interpretações distintas: referem-se a grupos separados ou parcialmente coincidentes?
Os relatos sobre artesãos sobrenaturais tornam a questão mais complexa: alguns episódios ligados aos svartálfar falam de criadores de objetos que noutros contextos seriam chamados anões. As fontes preservadas não estabelecem claramente três povos distintos, cada qual com o seu território e características bem definidas.
Múspell. Nome associado a um reino de fogo e calor e às forças que participam no Ragnarök. No relato das origens transmitido por Snorri, as faíscas e o calor provenientes de Múspellheim chegam a Ginnungagap e contribuem para o surgimento da vida primordial. Múspellheim não é, portanto, apenas uma designação moderna: aparece nesse relato medieval. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
No fim do mundo, os filhos de Múspell avançam sob a liderança de Surtr. A sua chegada liga a força ígnea presente na criação ao fogo que consumirá a ordem existente. Os textos não descrevem todos os membros deste exército com o mesmo detalhe; Surtr é a sua figura individual mais conhecida.
Hel. O nome pode referir-se tanto a Hel, a figura que governa sobre certos mortos, como ao reino a eles associado. Segundo Snorri, Hel é filha de Loki e foi enviada para Niflheim, onde recebeu autoridade sobre aqueles que chegavam até ela, incluindo pessoas que morriam de doença ou velhice. O mesmo autor descreve a sua morada com muralhas e portões. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
O destino dos mortos nas tradições nórdicas é mais variado do que uma simples divisão entre Valhalla e Hel. Freyja recebe uma parte dos que tombam em combate, e outros relatos preservam imagens diferentes da relação entre os vivos e os mortos. Hel não equivale simplesmente ao inferno cristão: identificar os dois apaga diferenças importantes de contexto, habitantes e significado.
Representação ilustrada dos nove mundos nórdicos

02Caminhos, fronteiras e lugares sagrados

Um caminho luminoso atravessa uma ponte entre montanhas sob Yggdrasil
Na cosmologia nórdica, um caminho pode conduzir ao reino dos deuses, uma raiz pode estender-se até uma região distante e um poço pode guardar conhecimento ou estar ligado ao destino. Estes lugares não formam um mapa único e detalhado. A sua importância decorre dos acontecimentos e dos seres que as fontes situam neles.
Yggdrasil — Yggdrasill. É a grande árvore que sustenta e liga diferentes âmbitos do cosmos. A Völuspá apresenta-a junto ao Poço de Urðr; Snorri desenvolve a imagem das suas raízes e situa por baixo delas lugares como o Poço de Mímir e Hvergelmir. Os deuses reúnem-se junto à árvore para realizar as suas assembleias. Yggdrasil é, portanto, um ponto de encontro entre regiões, seres e acontecimentos que não permanecem isolados uns dos outros. *Völuspá*, *Edda Poética*, tradução inglesa de Henry Adams Bellows
A árvore também está exposta a danos. Snorri fala de criaturas que vivem entre os seus ramos e de Níðhöggr, que rói uma das suas raízes por baixo. As nornas, pelo contrário, recolhem água e barro do Poço de Urðr para a aspergir sobre a árvore e evitar que murche. A sua sobrevivência exige cuidados, mesmo enquanto sustenta a ordem do mundo.
No romance, as raízes formam também uma rede viva através da qual certos descendentes dos Vanir percebem memórias, presenças e destinos possíveis. É frequente descrever Yggdrasil como a árvore que liga «os nove mundos». As fontes mencionam nove mundos, mas não transmitem uma lista única e indiscutível de todos eles nem explicam em pormenor a posição de cada um entre os ramos e as raízes da árvore. *Völuspá*, *Edda Poética*, tradução inglesa de Henry Adams Bellows
Heimdall vigia o acesso perto da extremidade celeste da ponte. A sua vigilância é significativa porque Bifröst liga âmbitos que não estão abertos a todos. Durante o Ragnarök, as forças de Múspell avançam por ela e a ponte acaba por se partir: nem uma construção dos deuses consegue resistir intacta à crise final.
No romance, Bifröst representa também o perigo de atravessar um limiar entre o mundo visível e o sagrado. Esta leitura conserva a sua função de passagem, acrescentando-lhe o significado que assume nas experiências das personagens.
Poço de Urðr — Urðarbrunnr. Fica junto a uma das raízes de Yggdrasil. Segundo Snorri, os deuses deslocam-se até lá para realizar as suas assembleias. Perto do poço vivem Urðr, Verðandi e Skuld, as três nornas que o relato menciona em conjunto. O lugar reúne, assim, a árvore do mundo, as decisões divinas e a duração das vidas humanas. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
Snorri descreve como sagrada a água do poço. As nornas recolhem-na, juntamente com o barro das margens, e aspergem Yggdrasil para preservar os seus ramos. Este gesto dá ao poço outra função além da sua ligação ao destino: ajuda a manter viva a árvore que sustenta o cosmos.
O sacrifício de Odin transforma o poço numa imagem do preço do conhecimento. A sua importância volta a manifestar-se quando se aproxima o Ragnarök: Snorri conta que Odin procura o conselho de Mímir antes da batalha. O lugar fica, assim, ligado tanto à antiga procura da sabedoria como à necessidade de enfrentar o fim da ordem conhecida. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
Em contraste com o Poço de Urðr, ligado às assembleias dos deuses e aos cuidados com a árvore, Hvergelmir surge numa região fria e ameaçadora. Ambas as fontes fazem parte da geografia de Yggdrasil, mas as imagens que as rodeiam são diferentes. As fontes não explicam com precisão todas as ligações físicas entre as suas águas.
Himinbjörg é também o lugar onde Heimdall vive, e não apenas um posto de vigia. Grímnismál menciona-a entre as moradas divinas e retrata Heimdall a beber no seu salão. Quando chega o Ragnarök, Heimdall faz soar o Gjallarhorn para avisar os deuses. A sua morada fica, assim, associada tanto à vigilância quotidiana de uma fronteira como ao anúncio da sua rutura final.
Ginnungagap pertence ao relato do que existia antes da formação do mundo ordenado. Não é um reino habitado comparável a Asgard ou Midgard, nem um lugar a que as figuras míticas viajem como atravessariam uma ponte. A sua importância reside em ser o espaço onde forças diferentes entram em contacto e começa a história do cosmos.
Vé. No nórdico antigo, a palavra está associada a um lugar sagrado ou recinto consagrado. Pode designar um espaço que se distingue do que o rodeia pelo seu caráter religioso. O termo pertence, assim, a uma escala diferente da dos grandes âmbitos cósmicos deste glossário: permite também falar dos lugares sagrados ligados às práticas humanas. Os testemunhos antigos e os estudos desses espaços mostram que não é necessário imaginar todos os vé como edifícios com a mesma forma. Estudo sobre lugares sagrados nórdicos
Aqui, vé designa um tipo de lugar. Deve distinguir-se de Vé, o deus que surge como irmão de Odin e Vili nos relatos da criação. A coincidência na escrita não transforma cada referência a um recinto sagrado numa referência ao deus.
Bifröst, Yggdrasil e as moradas dos deuses

03Moradas divinas e salões dos mortos

Grande salão nórdico iluminado pelo fogo entre montanhas ao entardecer
As fontes nórdicas nomeiam numerosos salões, territórios e moradas divinas. Alguns recebem descrições precisas; de outros, pouco sabemos além do nome e de quem lhes pertence. Valhalla e Fólkvangr estão ligados aos mortos em combate, enquanto lugares como Bilskirnir e Breiðablik são moradas dos deuses. A distinção é importante: nem todos os salões divinos são destinos dos mortos.
Valhalla — Valhöll. É o salão de Odin, para onde vão os guerreiros mortos em combate que ele escolhe. Ali se reúnem os einherjar, que formarão parte das suas forças quando chegar o Ragnarök. As fontes não apresentam Valhalla como destino de todos os mortos, nem afirmam que todos os guerreiros caídos entram nela: Freyja também recebe uma parte dos que morrem em batalha.
Em Grímnismál, Valhalla ergue-se em Glaðsheimr. O poema representa-a com imagens guerreiras: lanças sobre o salão, escudos e cotas de malha. Menciona também as suas muitas portas, por onde sairão os combatentes quando chegar a luta contra o lobo. Estes detalhes exprimem tanto o poder de Odin como a enorme hoste que prepara para a batalha final. *Grímnismál* (*O Canto de Grimnir*), tradução inglesa de Benjamin Thorpe
Snorri descreve a vida dos einherjar dentro de Valhalla. Durante o dia combatem entre si; depois regressam ao salão para se reunir e beber. O javali Sæhrímnir fornece alimento, enquanto a cabra Heiðrún dá hidromel. Perto dali surge também o veado Eikþyrnir, associado à origem de numerosos cursos de água. Valhalla reúne, assim, imagens de guerra, abundância e preparação para uma destruição que os seus habitantes sabem que chegará. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
Fólkvangr. É o domínio de Freyja associado aos mortos em combate. Grímnismál afirma que a deusa escolhe metade dos caídos e que Odin recebe a outra metade. Snorri também regista esta divisão e situa ali a morada da deusa. As fontes, porém, não explicam os critérios segundo os quais alguns chegam a Fólkvangr e outros a Valhalla. *Grímnismál* (*O Canto de Grimnir*), tradução inglesa de Benjamin Thorpe
A presença de Freyja impede que o destino dos guerreiros seja reduzido a Odin e ao seu salão. Também não permite afirmar que Fólkvangr esteja reservado a mortos menos guerreiros: os textos associam-no precisamente aos que caíram em combate. O romance pode estabelecer um contraste simbólico entre os dois destinos — por exemplo, associando Fólkvangr ao mistério de Freyja —, mas esse contraste pertence à interpretação literária, não a uma distinção explicada pelas fontes medievais.
Sabemos muito menos sobre Fólkvangr do que sobre Valhalla. Não se conservou uma descrição comparável das atividades dos seus habitantes nem um relato detalhado do seu papel durante o Ragnarök. A sua importância reside, em parte, nessa presença inequívoca e, ao mesmo tempo, pouco desenvolvida: Freyja partilha com Odin a escolha dos caídos.
Sessrúmnir. Segundo a Gylfaginning, é o salão de Freyja em Fólkvangr. Snorri chama-lhe grande e belo, mas não descreve as suas portas, as suas dimensões ou a vida quotidiana de quem ali se reúne. Por isso, Fólkvangr e Sessrúmnir não são nomes intercambiáveis: o primeiro designa o domínio de Freyja; o segundo, o seu salão no relato de Snorri. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
O nome Sessrúmnir é frequentemente relacionado com a amplitude ou a abundância de assentos. Essa interpretação combina com a imagem de um grande salão, mas não basta para lhe atribuir cerimónias, banquetes ou regras de admissão que os textos não narram. Em comparação com os muitos pormenores conservados sobre Valhalla, Sessrúmnir continua a ser uma morada de grande importância cujo interior mal conseguimos reconstruir.
Bilskirnir. É o salão de Thor. Snorri situa-o na região chamada Þrúðvangar e apresenta-o, ao explicar Grímnismál, como a maior das casas conhecidas, com quinhentas e quarenta divisões. As traduções nem sempre exprimem da mesma maneira o termo usado para estas divisões; o que ambas as fontes salientam é a sua dimensão extraordinária. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
A sua vastidão sublinha a posição de Thor entre os deuses, mas Bilskirnir é uma morada divina, não um destino geral para os guerreiros mortos. O poema menciona-a numa lista de lugares que pertencem a diferentes figuras divinas. Não oferece uma descrição extensa do seu interior, dos seus visitantes ou das atividades ali realizadas.
Þrúðheimr / Þrúðvangar. São nomes ligados ao domínio de Thor. Grímnismál menciona Þrúðheimr como o lugar onde o deus habita, enquanto Snorri chama Þrúðvangar ao seu território e situa ali Bilskirnir. As formas aparecem em fontes e contextos diferentes; por isso, é mais rigoroso explicar a relação entre elas do que substituir sempre uma pela outra. *Grímnismál* (*O Canto de Grimnir*), tradução inglesa de Benjamin Thorpe
Estes nomes permitem distinguir o domínio associado a Thor de Bilskirnir, o seu salão. As fontes conservadas não oferecem um mapa detalhado de Þrúðheimr ou Þrúðvangar, nem descrevem as suas fronteiras. O que transmitem é a existência de uma morada própria de Thor entre os lugares divinos.
O texto dedica muito mais atenção ao aspeto e à função de Valhalla do que à geografia de Glaðsheimr. Não explica com precisão as suas fronteiras nem enumera todas as construções que poderia conter. A sua menção é, ainda assim, importante para perceber que os grandes salões nórdicos podem situar-se dentro de domínios divinos mais amplos.
Breiðablik. É a morada de Baldr. Grímnismál conta que o deus construiu ali um salão para si e apresenta-o como um lugar onde há muito pouco mal. Snorri destaca a sua beleza extraordinária e afirma que nele não se encontra nada impuro. Estas descrições concordam com a imagem luminosa de Baldr transmitida pela Gylfaginning. *Grímnismál* (*O Canto de Grimnir*), tradução inglesa de Benjamin Thorpe
A associação ganha especial força quando se conhece a morte de Baldr: uma morada ligada à pureza e à beleza pertence a um deus cuja perda abala os Æsir. As fontes, contudo, não contam em pormenor o que acontece dentro de Breiðablik nem permitem transformá-lo num destino dos mortos. É, antes de mais, a morada de Baldr.
Gimlé ocupa, portanto, uma posição diferente de Valhalla: Valhalla prepara os combatentes para o Ragnarök; Gimlé pertence à visão daquilo que perdura depois. Snorri procura explicar como pode sobreviver ao fogo de Surtr e menciona outros céus na sua resposta. A passagem combina sobrevivência, renovação e uma ideia de justiça, embora não descreva por completo a vida nesse salão.
Fontes principais desta secção: Grímnismál e Völuspá, da Edda Poética, e Gylfaginning, da Edda em prosa. As ligações acima conduzem a traduções inglesas destes textos.

04Destino e escolha dos caídos

Três figuras junto a um poço sob árvores antigas e montanhas
Nos relatos nórdicos, o destino não depende de uma única categoria de seres. As nornas intervêm na vida das pessoas; as valquírias surgem ligadas à batalha e à escolha dos caídos; outros termos, como fylgja e hamingja, exprimem vínculos mais pessoais com a sorte e com a continuidade de uma linhagem. As suas funções podem aproximar-se, mas as fontes não os apresentam como equivalentes.
Nornas. São seres relacionados com o destino e com a duração da vida. As três mais conhecidas são Urðr, Verðandi e Skuld. Snorri situa-as junto ao Poço de Urðr, sob Yggdrasil, e afirma que determinam quanto tempo as pessoas viverão. Descreve também outras nornas que chegam quando uma criança nasce e dispõem alguns aspetos da sua vida. Segundo o seu relato, nem todas têm a mesma origem: menciona nornas ligadas aos deuses, aos elfos e aos anões. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
As nornas são popularmente conhecidas como «tecelãs do destino». Esta imagem exprime bem a relação entre vidas e acontecimentos, embora as suas aparições nas fontes nem sempre se limitem a tecer: também são relacionadas com decisões sobre a vida e com o cuidado de Yggdrasil. No romance, a sua presença faz-se sentir quando uma visão mostra um futuro que se pode enfrentar, mas não ignorar.
Urðr. É uma das três nornas nomeadas junto ao poço que tem o seu nome: Urðarbrunnr. O seu nome está ligado ao destino e ao que já aconteceu. Por isso, é muitas vezes associada ao passado, embora as fontes não a apresentem apenas como guardiã das memórias.
O Poço de Urðr é também um lugar de reunião dos deuses. Snorri conta que as nornas recolhem água e barro dos seus arredores para aspergir Yggdrasil e preservar os seus ramos. Urðr fica, assim, ligada a uma imagem mais ampla do que a de uma vida individual: o destino, a árvore do mundo e a continuidade da ordem cósmica encontram-se num mesmo lugar. No romance, conserva simbolicamente os vestígios de sangue, juramentos, traições e promessas antigas. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
Verðandi. É a segunda das três nornas mais conhecidas. O seu nome está relacionado com aquilo que está a acontecer ou a tornar-se; daí a sua associação habitual ao presente. A relação linguística é sugestiva, mas os textos não lhe atribuem uma função exclusiva, separada das de Urðr e Skuld.
Snorri apresenta as três em conjunto no domínio do Poço de Urðr. A sua ação partilhada é um dado mais sólido do que a imagem moderna de três deusas que governariam, cada uma por si, o passado, o presente e o futuro. No romance, Verðandi representa o instante em que os atos dos vivos ainda podem moldar o que acontece.
Skuld. É a terceira norna nomeada juntamente com Urðr e Verðandi. O seu nome está relacionado com ideias como aquilo que é devido, a obrigação ou o que terá de acontecer. É frequentemente ligada ao futuro, mas identificá-la exclusivamente como «a norna do futuro» simplifica o que as fontes transmitem.
Skuld ocupa também uma posição singular: Snorri menciona-a entre as figuras que cavalgam para recolher os caídos e decidir os combates, funções associadas às valquírias. Esta sobreposição mostra que as categorias de «norna» e «valquíria» nem sempre têm limites completamente rígidos nos textos. No romance, o seu nome pesa sobre as visões de Anna, Eline e Max porque exprime aquilo que se aproxima e a que terão de responder. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916), p. 80
Os poemas preservados apresentam valquírias com nomes e papéis variados. Algumas participam em narrativas heroicas e criam laços pessoais com os protagonistas; outras surgem sobretudo como parte das imagens da batalha. Reduzi-las a meras acompanhantes dos mortos deixaria de fora essa variedade. No romance, têm um peso simbólico particular através das visões de Max sobre o destino de Thorvald.
Einherjar. São os guerreiros mortos reunidos sob Odin em Valhalla. O seu destino após a morte está ligado ao Ragnarök: formam a hoste que partirá para o combate quando chegar o confronto final. A sua presença explica por que razão Valhalla surge ao mesmo tempo como salão dos caídos e como lugar de preparação para a guerra.
Snorri descreve uma rotina extraordinária: os einherjar saem para combater entre si, caem na luta e depois regressam para se reunir no salão. Aí recebem comida e bebida em abundância. Este ciclo não desfaz a morte anterior; exprime que a sua existência está orientada para uma última batalha. Nem todos os mortos, nem mesmo todos os guerreiros que caem em combate, recebem necessariamente este destino, pois as fontes atribuem também a Freyja uma parte dos caídos. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
Dísir. Nome aplicado a figuras femininas sobrenaturais em diferentes tradições nórdicas. Conforme o relato ou o contexto, podem estar associadas à proteção, à família, à morte, à fortuna ou a acontecimentos decisivos na vida de uma pessoa. As fontes não oferecem uma descrição única que atribua a todas as dísir a mesma tarefa.
A amplitude dos significados explica por que, em alguns relatos, parecem próximas de seres ligados ao destino. Contudo, dísir, nornas e valquírias não são simplesmente três nomes intercambiáveis. As suas funções podem coincidir em determinados contextos, enquanto noutros as fontes as apresentam de maneira diferente.
Fylgja. É uma presença ligada a uma pessoa e, em alguns relatos, à sua sorte ou ao seu destino. O termo relaciona-se com a ideia de «seguir»: uma fylgja acompanha alguém ou está ligada a essa pessoa, embora nem sempre se manifeste de forma visível.
Pode surgir sob diferentes formas, entre elas a de um animal ou a de uma figura feminina. A sua aparição, sobretudo em sonhos ou visões, pode revelar algo sobre o caráter, o perigo ou o destino da pessoa a que está ligada. Os relatos não oferecem uma regra única para a interpretar: o seu sentido depende do que acontece em cada história.
Hamingja. Termo relacionado com a sorte, a fortuna ou uma força favorável que acompanha uma pessoa. Em alguns relatos, essa fortuna também se liga a uma família e pode ser entendida como algo que continua dentro de uma linhagem.
A hamingja ajuda a compreender que, nos relatos nórdicos, o destino não se exprime apenas através de profecias ou das decisões das nornas. Pode também surgir como uma força associada ao percurso de uma pessoa, ao êxito dos seus atos e aos vínculos entre gerações. Não equivale exatamente à fylgja: os dois termos podem aproximar-se quando se referem à sorte pessoal, mas têm usos e nuances diferentes.
Nornas e figuras ligadas ao destino e ao Ragnarök

05Crise, morte do mundo e renovação

Um novo rebento diante de uma paisagem devastada pelo fogo e pelo Ragnarök
O Ragnarök não começa com uma única batalha. Primeiro, deterioram-se as relações humanas, chega um inverno devastador e alteram-se os limites que mantinham separadas as forças do mundo. Depois dos combates, do fogo e da inundação, as fontes conservam também imagens de sobrevivência: seres humanos escondidos, deuses que permanecem e uma terra que volta a emergir.
Fimbulvetr. É o «Grande Inverno» associado à crise que precede o Ragnarök. O nome combina fimbul, «grande» ou «poderoso», e vetr, «inverno». A forma Fimbulwinter surge em adaptações modernas e designa o mesmo acontecimento.
Em Vafþrúðnismál, Fimbulvetr aparece numa pergunta sobre quais os seres humanos que sobreviverão quando tiver passado. Snorri oferece um relato mais pormenorizado: descreve três invernos seguidos sem verão entre eles, com neve vinda de todas as direções, geadas extremas e ventos violentos. Antes deles, situa outros invernos marcados por grandes guerras. *Vafþrúðnismál* (*O Canto de Vafthrudnir*), tradução inglesa de Benjamin Thorpe
A rutura também atinge a sociedade humana. Snorri descreve a violência entre parentes e o abandono dos laços familiares. O frio, a guerra e a desagregação das relações mostram que a ordem do mundo começa a ceder muito antes de deuses e inimigos se encontrarem no campo de batalha.
Ragnarök. Nome dado ao conjunto de acontecimentos que conduz à queda de muitos deuses e à destruição do mundo conhecido. Não se limita a uma batalha: inclui sinais premonitórios, a libertação de criaturas acorrentadas, o avanço de forças hostis, confrontos decisivos e a devastação causada pelo fogo e pela água.
Entre os episódios mais conhecidos estão a morte de Odin às mãos de Fenrir; a vingança de Víðarr; a luta de Thor contra a serpente Jörmungandr, após a qual ambos morrem; a queda de Freyr perante Surtr; e o confronto final entre Loki e Heimdall. As fontes não desenvolvem todos estes episódios com o mesmo grau de pormenor nem os ordenam sempre da mesma forma. A Völuspá apresenta imagens poéticas poderosas; Snorri reúne-as numa narrativa mais contínua. *Gylfaginning*, *Edda em prosa*, tradução inglesa de Arthur Gilchrist Brodeur (1916)
O final também não consiste apenas num desaparecimento absoluto. Depois da devastação, a terra volta a emergir das águas e algumas figuras divinas e humanas continuam a viver. No romance, o Ragnarök funciona também como mito antigo e reflexo de uma Europa que se aproxima de uma nova destruição.
Surtr combate Freyr. Segundo Snorri, a derrota de Freyr é favorecida pela ausência da espada que este tinha dado anteriormente a Skírnir. Depois dos confrontos, Surtr espalha o fogo sobre a terra e consome o mundo anterior. A sua ação completa a destruição, mas os relatos do Ragnarök não terminam aí: depois das chamas abre-se a possibilidade de uma terra renovada.
Snorri acrescenta que as unhas não cortadas de uma pessoa morta fornecem material para a sua construção. Um pormenor dos cuidados com os mortos passa assim a fazer parte da preparação da catástrofe. A Völuspá também anuncia que Naglfar é libertado, embora as suas imagens de navios, chefes e exércitos não devam ser equiparadas em todos os pormenores ao relato posterior de Snorri.
O Gjallarhorn está ligado ao papel de Heimdall como sentinela: é ele quem percebe que chegou o momento e dá o alarme. No relato de Snorri, depois do chamamento os deuses reúnem-se em conselho e Odin procura conhecimento antes de partir para a batalha. O corno não causa o Ragnarök; anuncia que os acontecimentos já não podem ser mantidos fora do âmbito divino.
Snorri inclui ambos no seu relato do mundo depois da destruição. Enquanto muitos deuses e seres humanos morrem, Líf e Lífþrasir preservam a possibilidade de uma nova humanidade. A sua sobrevivência não torna a catástrofe menos grave: mostra que algo vivo atravessa esse acontecimento.
Hoddmímis holt. É o bosque onde Líf e Lífþrasir se escondem. As fontes dizem pouco sobre a sua localização exata ou aparência. A sua função no relato é clara: oferece refúgio aos dois seres humanos durante uma crise que ameaça acabar com a sua espécie.
O nome liga este lugar a Hoddmímir, mas a identidade precisa dessa figura e a relação do bosque com outros lugares da cosmologia nórdica continuam a ser objeto de interpretação. É, portanto, seguro descrevê-lo como uma floresta protetora, sem lhe atribuir uma localização detalhada que os textos preservados não indicam.

Fontes e leituras complementares