Antes de Londres, há Hamburgo.
Antes do British Museum, dos Ravenscroft e dos corpos que emergem do Tamisa, há outro rio, outro porto e outra cidade a aprender com que rapidez as certezas podem desaparecer.
Estamos em 1930.
Hamburgo continua a ser uma das grandes cidades marítimas da Europa, ligada pelo Elba ao mar do Norte e, daí, a portos de todo o mundo. Os navios chegam carregados de mercadorias, marinheiros e rumores de lugares que a maioria dos alemães nunca verá. Os armazéns dominam partes da frente ribeirinha. As gruas erguem-se sobre as docas. As barcaças deslocam-se em águas escuras. O vapor, o fumo do carvão e a névoa industrial misturam-se sobre o porto.
Para lá dele fica Sankt Pauli.
Bairro de diversão.
Bairro de marinheiros.
Bairro operário.
Bairro de prostituição.
Um lugar onde o dinheiro ganho no mar pode desaparecer antes de amanhecer.
É em Hamburgo que Grimwolf começa, porque oferece algo que Eirikr Skarnisson compreende instintivamente.
Movimento.
Os homens chegam.
Os homens partem.
E alguns homens desaparecem.
HAMBURGO EM 1930
Hamburgo entrou na nova década com feridas que pouco tinham que ver com mitologia.
A derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial destruíra o império do Kaiser Guilherme II e dera origem à República de Weimar. Os anos seguintes trouxeram revolução, violência política, hiperinflação e períodos de extraordinária experimentação cultural.
Na segunda metade da década de 1920, a Alemanha parecia ter recuperado alguma estabilidade.
Depois chegou 1929.
A queda da Bolsa de Wall Street transformou-se numa crise económica internacional, e a Alemanha era particularmente vulnerável. A sua recuperação dependera fortemente do crédito estrangeiro. À medida que esse sistema se contraía, as empresas faliam e o desemprego aumentava.
As consequências tornaram-se cada vez mais visíveis ao longo de 1930.
Hamburgo dificilmente lhes poderia escapar.
Era uma cidade comercial cuja prosperidade dependia do comércio internacional. Quando o comércio mundial sofria, as docas sentiam-no. Por detrás das estatísticas estavam estivadores à espera de trabalho, marinheiros sem saber qual seria o seu próximo embarque, famílias a ver desaparecer as poupanças e empresas a disputar clientes com menos dinheiro para gastar.
A política passou para as ruas.
Comunistas e nacional-socialistas disputavam o apoio de populações abaladas pelo desemprego e pelo ressentimento. O avanço eleitoral do Partido Nazi, em setembro de 1930, transformou-o no segundo maior partido do Reichstag.
O futuro ainda não estava decidido.
Esse ponto importa.
Quem percorresse Hamburgo em 1930 não poderia saber com certeza no que a Alemanha se transformaria três anos depois.
Hitler ainda não era chanceler.
A República de Weimar ainda existia.
As pessoas continuavam a ir trabalhar, a beber cerveja, a frequentar teatros, a embarcar em navios, a queixar-se dos políticos e a fazer planos para o ano seguinte.
A história não as informara de que viviam entre capítulos.
O PORTO DE HAMBURGO
Hamburgo existia por causa da água.
O Elba ligava a cidade ao mar do Norte, e o porto ligava a Alemanha ao mundo. A sua importância crescera enormemente durante o século XIX, à medida que a industrialização e o comércio internacional transformavam os portos europeus.

No século XX, Hamburgo possuía um imenso sistema de docas, cais, armazéns, canais e ligações ferroviárias.

A Speicherstadt — o grande bairro de armazéns construído a partir do final do século XIX — encarnava esse poder comercial. Longos armazéns de tijolo erguiam-se sobre canais onde as mercadorias podiam ser transferidas entre embarcações e edifícios de armazenamento.
Café.
Chá.
Especiarias.
Tabaco.
Tapetes.
Cacau.
Maquinaria.
Milhares de mercadorias passavam por um sistema construído em torno do movimento.
O porto era, por isso, mais do que um cenário.
Criava a sua própria sociedade.
Os estivadores viviam ao ritmo da chegada dos navios e da disponibilidade de trabalho. Os marinheiros apareciam durante dias ou semanas antes de voltarem a desaparecer. Companhias de navegação, funcionários aduaneiros, comerciantes, polícias, taberneiros, prostitutas, ladrões e contrabandistas dependiam, de diferentes formas, da mesma economia marítima.
As línguas viajavam com os navios.
Um marinheiro que desembarcasse podia ouvir alemão seguido de dinamarquês, sueco, norueguês, inglês, neerlandês ou línguas trazidas de lugares consideravelmente mais distantes.
Para Eirikr, isto importa.
Um estrangeiro escandinavo chama menos a atenção num grande porto internacional do que numa cidade alemã de província.
Hamburgo dá-lhe anonimato.
Também dá aos seus inimigos a mesma vantagem.
SANKT PAULI
A oeste do centro de Hamburgo, perto do porto, Sankt Pauli desenvolvera uma reputação inseparável dos marinheiros e do entretenimento.
A sua artéria mais famosa era a Reeperbahn.

O próprio nome conserva a história marítima mais antiga do bairro. Os fabricantes de cordas — Reepschläger — precisavam outrora de longas faixas de terreno aberto para fabricar os cabos exigidos pelos veleiros.
A transformação industrial mudou a zona.
O entretenimento tomou conta dela.
Na época de Weimar, Sankt Pauli reunia teatros, salas de espetáculos, espaços de dança, bares, restaurantes, alojamentos baratos, estabelecimentos de bebidas e comércio sexual. Os marinheiros com dinheiro e pouco tempo em terra constituíam um mercado evidente.
A Hamburgo respeitável sabia o que ali se passava.
A Hamburgo respeitável também lá ia.
Essa contradição é central no caráter de Sankt Pauli.
Um empresário próspero podia passar o dia a negociar contratos ligados ao porto e a noite à procura de diversões de que nunca falaria em casa.
Um marinheiro podia perder várias semanas de salário antes do nascer do sol.
Um criminoso podia encontrar-se com clientes sem atrair especial atenção.
E um caçador podia sentar-se em silêncio numa sala apinhada, enquanto todos à sua volta presumiam que ali estava pelos mesmos motivos que eles.
É neste ambiente que Grimwolf situa Der Silberne Schatten — A Sombra de Prata.
O cabaré é ficcional.
O mundo que o rodeia não é.
A VIDA NOTURNA NA CIDADE DE WEIMAR
A Alemanha da República de Weimar desenvolveu uma vida noturna cuja reputação ultrapassou largamente as suas fronteiras.
Berlim tornou-se o seu símbolo mais famoso, mas Hamburgo possuía uma cultura noturna própria, fortemente marcada pelo porto.

A música escapava dos estabelecimentos.
O álcool soltava as línguas.
Os marinheiros procuravam companhia.
Os artistas circulavam entre teatros respeitáveis e estabelecimentos que funcionavam mais perto dos limites da legalidade.
Por detrás do entretenimento vinha o dinheiro.
E onde quer que circulem grandes quantidades de dinheiro, alguém quer o controlo.
Proteção.
Jogo.
Prostituição.
Contrabando.
Mercadorias do mercado negro.
Informação.
A fronteira entre a diversão noturna legítima e o crime organizado podia tornar-se deliberadamente indistinta.
O proprietário de um clube noturno podia conhecer um empresário.
O empresário podia conhecer um funcionário aduaneiro.
Um marinheiro podia levar para terra algo que nunca figurara no manifesto de carga do navio.
Nenhum dos envolvidos precisa de compreender toda a rede.
Basta-lhe saber a quem paga.
Em Grimwolf, essa rede conduz a Wilhelm von Fersen.
A RUA POLÍTICA
A vida noturna de Sankt Pauli existia ao lado de uma luta consideravelmente menos glamorosa.
A Alemanha tornava-se violentamente polarizada.
O Partido Comunista da Alemanha tinha forte apoio em setores da classe operária urbana, enquanto os nacional-socialistas se expandiam de forma agressiva. As suas formações paramilitares e os seus adversários políticos tratavam cada vez mais o espaço público como território a disputar.
As reuniões transformavam-se em confrontos.
As marchas atraíam contramarchas.
Os punhos davam lugar a bastões.
Os bastões davam lugar a facas e armas de fogo.
A violência política não se limitava ao debate parlamentar porque os próprios movimentos entendiam a rua como uma demonstração de poder.
Os bairros operários de Hamburgo ofereciam terreno fértil à política radical.
Sankt Pauli acabaria por ficar particularmente associado à resistência comunista aos nazis, mas, em 1930, o desfecho da luta permanecia em aberto.
Para Grimwolf, esta instabilidade cria uma camuflagem útil.
Um homem espancado numa ruela podia ter sido atacado por adversários políticos.
Os tiros podiam ser de criminosos.
Uma luta de rua podia começar por ideologia, jogo, álcool ou um insulto de que ninguém se lembraria na manhã seguinte.
A violência tem muitas explicações.
Eirikr só precisa de uma.
INVERNO NO PORTO
Hamburgo no inverno é diferente do nevoeiro teatral da Londres gótica.
O frio vem da água.
O vento percorre o Elba e as zonas abertas das docas. A chuva pode transformar-se em neve molhada. A humidade deposita-se no ferro e no tijolo. Os navios emergem de nuvens baixas e da névoa industrial antes de desaparecerem atrás de armazéns e gruas.
O porto oferece uma banda sonora mecânica constante.

Correntes.
Guinchos.
Vapor.
Metal a bater em metal.
Sirenes de navios a atravessar a escuridão.
Botas sobre cais molhados.
Depois, espaços mais silenciosos entre eles.
Um armazém depois de os trabalhadores partirem.
Uma via de serviço atrás de um clube noturno.
Uma rua estreita onde a música da Reeperbahn se torna distante.
Em Grimwolf, o tempo possui outra dimensão.
Eirikr descende dos Vanir, da linhagem de Njörðr.
A água responde-lhe.
O nevoeiro também.
A neve pode tornar-se uma arma.
O ambiente de Hamburgo serve, por isso, dois propósitos.
Historicamente, pertence a um porto do norte da Europa.
Mitologicamente, já pertence a Eirikr.
Os seus inimigos simplesmente ainda não o perceberam.
DER SILBERNE SCHATTEN
Algures na Sankt Pauli ficcional de Grimwolf ergue-se um cabaré chamado Der Silberne Schatten.
A Sombra de Prata.
Wilhelm von Fersen utiliza o estabelecimento como parte de um império criminoso construído em torno do contrabando e da prostituição.
É rico.
Protegido.
Bem relacionado.
E consideravelmente mais do que humano.
Wilhelm pertence à Broderskap, a organização que Eirikr persegue desde o assassínio da mulher e dos filhos. Sob a sua aparência de magnata do crime esconde-se uma herança mais antiga: é Æsir-borinn, descendente dos Æsir.
Esse sangue ensinou-lhe a arrogância.
Julga-se protegido por forças que os homens comuns nunca poderiam desafiar.
Eirikr não é um homem comum.
Entra no território de Wilhelm como um predador entra no domínio de outro animal.
Observa.
Aprende as rotinas.
Avalia as saídas.
Espera.
Dentro do cabaré, Wilhelm dispõe de dinheiro, guardas e testemunhas.
Lá fora, Hamburgo pertence ao inverno.
Eirikr prefere o exterior.
A CAÇA A WILHELM VON FERSEN
O confronto começa com algo de notavelmente banal.
Um carro que não pega.
Eirikr sabotou-o.
Wilhelm abandona a proteção do seu estabelecimento e sai para a rua, onde o caçador preparou a geografia antes de a presa perceber que começou uma caça.
Depois, o mundo antigo irrompe através do moderno.
Wilhelm manifesta armas que não pertencem a um criminoso de Hamburgo em 1930: uma armadura de ferro negro, um escudo rúnico e uma espada comprida.
A sua linhagem seguiu-o até à ruela.
A de Eirikr também.
A neve e o frio deixam de ser pano de fundo.
Eirikr manipula-os.
Move-se com a velocidade e a precisão de um predador, usando as facas contra as aberturas, em vez de tentar vencer pela força uma armadura concebida para resistir a ataques diretos.
Wilhelm compreende finalmente quem o veio buscar.
Tenta o dinheiro.
Eirikr não tem interesse nele.
A dívida entre ambos foi criada com sangue.
É paga da mesma forma.
Uma faca entra na garganta de Wilhelm.
A Broderskap perde um dos seus.
E Eirikr lança o seu desafio para lá do homem moribundo, em direção aos deuses cujos descendentes se julgam intocáveis.
Hamburgo testemunhou muitos homicídios.
Este pertence a uma guerra muito mais antiga.
POR DETRÁS DA ESTANTE
Matar Wilhelm é apenas o princípio.
Antes de a polícia conseguir fechar o cerco ao mundo do morto, Eirikr entra no seu apartamento à procura de informação.
O cenário muda.
A violência de Sankt Pauli dá lugar à riqueza, aos livros e aos objetos cuidadosamente dispostos.
Então, Eirikr repara em algo de errado na biblioteca.
Um mecanismo oculto revela uma câmara secreta.
Lá dentro encontram-se objetos que mudam o rumo da história.
Uma figura de Loki em pedra negra.
Um colar rúnico com uma pedra azul, capaz de proteger quem o usa da manipulação mental das völur.
Uma pequena adaga Vanir gravada com motivos de vento e ondas, que responde à natureza elemental do próprio Eirikr.
Um diário.
Um mapa.
E um espelho de cristal.
O espelho mostra-lhe montanhas cobertas de neve e sugere a localização da arma que procura.
O mapa aponta para norte.
Para a Escandinávia.
Contudo, os registos de Wilhelm revelam também outra pista.
Inglaterra.
Os Ravenscroft.
A viagem de Eirikr deveria levá-lo para norte.
Em vez disso, a vingança leva-o para oeste.
PARTIR DE HAMBURGO
Não há uma partida elegante.
Eirikr não embarca num paquete de luxo com bagagem impecável e um bilhete de primeira classe.
Desaparece no porto.
Aí consegue passagem a bordo do cargueiro ficcional MS Friedrich, com destino a Londres.
Trabalha sob o convés, entre caldeiras, vapor e homens cujas vidas pertencem aos navios.
E é aí que conhece Klaus.
Klaus é bávaro, veterano da Grande Guerra, marinheiro, jogador e quase tudo o que Eirikr não é.
Fala.
Eirikr prefere o silêncio.
Klaus sonha reformar-se para uma quinta na Alemanha.
Eirikr deixou, em grande medida, de imaginar um futuro.
Klaus ri com facilidade.
O humor de Eirikr tende a deixar vítimas.
A amizade entre ambos começa no ventre industrial de um cargueiro que deixa Hamburgo para trás.
Durante a travessia, Klaus testemunha algo que torna o seu estranho companheiro consideravelmente mais difícil de explicar.
Uma queimadura grave provocada por vapor cura-se com uma rapidez impossível.
O escandinavo silencioso que trabalha ao seu lado não é apenas mais um marinheiro fugitivo.
Por fim, Eirikr conta-lhe parte da verdade.
Há um homem em Inglaterra que pretende encontrar.
Um Ravenscroft.
Há uma dívida.
Klaus compreende as dívidas.
Talvez isso baste.
O MS Friedrich desce o Elba em direção ao mar do Norte.
Atrás deles fica Hamburgo: gruas, armazéns, cabarés, violência política e o sangue de Wilhelm von Fersen.
À frente fica Londres.
Nenhum dos dois compreende ainda o que ali os espera.
HAMBURGO REAL / HAMBURGO FICCIONAL
A Hamburgo que rodeia o início de Grimwolf assenta na cidade histórica da República de Weimar.
Hamburgo, o Elba, o porto, Sankt Pauli, a Reeperbahn e a Speicherstadt são reais.
Também são reais as pressões económicas que se seguiram à crise de 1929, o conflito político entre comunistas e nacional-socialistas, a cultura marítima do porto e a longa associação de Sankt Pauli ao entretenimento e ao comércio sexual.
Outros elementos pertencem inteiramente à novela.
Der Silberne Schatten é ficcional.
Wilhelm von Fersen é ficcional.
A Broderskap e as suas linhagens sobrenaturais são ficcionais.
A coleção secreta no apartamento de Wilhelm, a adaga Vanir, o colar rúnico e o espelho mágico pertencem à mitologia de Grimwolf.
O MS Friedrich, no qual Eirikr e Klaus viajam para Inglaterra, também faz parte da narrativa ficcional.
Tal como em Londres, a distinção é deliberada.
Grimwolf não precisa de uma cidade imaginária.
A cidade real já é suficientemente complexa.
A ficção esconde-se atrás da porta de um clube noturno, dentro da biblioteca de um homem rico, sob o convés de um cargueiro e no sangue de pessoas que parecem perfeitamente humanas até alguém tentar matá-las.
HAMBURGO EM GRIMWOLF
Londres é onde a conspiração ganha dimensão.
Hamburgo é onde o leitor descobre que tipo de homem vem ao seu encontro.
Eirikr Skarnisson entra na história já ferido.
A sua família está morta.
A Broderskap é responsável.
Deixou de procurar justiça e escolheu algo mais antigo.
Vingança.
Hamburgo estabelece as regras dessa vingança.
Eirikr caçará homens mais poderosos do que ele.
Entrará no território deles.
Descobrirá o que temem.
Recusará o seu dinheiro.
E, quando o mundo antigo se revelar sob o moderno, responder-lhe-á na sua própria língua.
Wilhelm von Fersen acredita que a sua ascendência divina o torna intocável.
Ele é o primeiro erro.
Quando o MS Friedrich deixa Hamburgo rumo a Inglaterra, Eirikr leva consigo os segredos de Wilhelm.
Leva também algo que os Ravenscroft ainda não compreenderam.
O caçador vem a caminho.
E Londres é a próxima.
